quarta-feira, 23 de outubro de 2013

A Filha do Dono da Cidade

E era assim a vida de Maria Cecília, todos os finais de tarde dos domingos, assistia da janela de seu quarto seu velho pai na sacada, usando aquele chapéu gângster e fumando aquele charuto como se fosse uma religião. Era todo metódico.

Às dez para seis pegava o cortador que ficava na pequena gaveta da mesinha onde ficava a agenda com nomes que já nem habitavam mais essa terra, fechava, ia até a estante, abria a porta de vidro, e pegava a caixa de charuto, ficava contemplando-a por um bom tempo, com um sorriso sutil, um sorriso raro em quem tem um coração como aquele. Abria a caixa demonstrando uma certa empolgação, e com muito zelo, cortava a ponta do charuto. Sua expressão era a mesma de quem fez um árduo trabalho e agora desfrutava dos resultados satisfatórios.

Então, senhor José Augusto acendia o charuto segurando-o em uma mão e em outra segurava o isqueiro de prata, que ganhou de seu amigo falecido, anos atrás na França. Fechava a tampa do isqueiro, e sentava-se na cadeira da varanda. Ali desfrutava daquele charuto, olhava pra ele, e tragava, e olhava no horizonte, com ar de quem estava numa propaganda do Marlboro, de quem estava desfrutando da gorda aposentadoria de anos trabalhados. Mas a verdade é que todo domingo à tarde, seu Augusto pensava nas noites dos cabarets franceses, em que passara com seu amigo na sua juventude boêmia.

Maria Cecília observava tudo aquilo, filha de mãe portuguesa, já falecida, havia crescido com aquele pai, indiferente, rude, nojento, libidinoso, saudosista do passado e metido em seu próprio mundo. Nunca fora fiel a dona Marieta.

Cecília ali, todos os domingos, mocinha recatada, filha do dono da fábrica de charutos, cortejada por muitos e proibida pra todos. Abriu seu leque, respirou fundo, e foi se olhar no espelho, como todos os domingos às vinte para as sete da tarde.

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