domingo, 9 de março de 2014

A pior morte é a morte dos sonhos.

Se um dia eu perder o brilho nos olhos eu prefiro mil vezes morrer. Eu não quero desistir dos meus sonhos, não quero ser como muitos zumbis que encontro todos os dias, eles não tem brilho nos olhos e nem amor próprio, pois não se impõem.

Não! Eu não quero perder o brilho nos meus olhos. A pior morte é a morte dos sonhos.


- Amanda Ribeiro

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

PC Siqueira - Você se Cansa


Um belo dia você acorda com uma dor no pescoço. Uma dor nas costas. Seus olhos ardem. Seus músculos ardem. Você tem dificuldades para se lembrar das coisas, você tem dificuldades para acordar. Você tem dificuldades para dormir, para engordar, ou emagrecer, dificuldades em chegar de um ponto ao outro, dificuldades em chegar ao ponto, você perde o ponto, perde tempo. ganha rugas.
Os dias passam, você respira fumaça, bebe água contaminada. Queima a pele do seu rosto pelos raios catódicos do monitor, acende um cigarro, se pergunta até que idade você vai sobreviver.
Pensa em se mudar para o interior. Pensa em parar de fumar. Pensa em comprar roupas novas. Pensa em matar alguém.

Um belo dia você acorda e se dá conta que está cansado.
Você se cansa da cidade, dos carros, das luzes. Você se cansa do lixo, das pessoas, do barulho. Se cansa de não saber para onde ir, se cansa de não ter para onde ir e precisar ir para algum lugar.
Você se cansa de não ter razão, de não ter caminhos, de não ter opções, se cansa de ver sua vida igual a de todos os outros, se cansa de ser de um rebanho sem pastor.
Você se cansa de chefes, deuses, impostos, moda, dinheiro. Você se cansa da sensação de estar desperdiçando seu tempo, você se cansa de não ter tempo algum para disperdiçar.
Você se cansa de viver em um mundo onde quem não está desesperado, está louco. Você se desespera com medo de enlouquecer. Respira fundo, acende um cigarro.
Você se cansa de não saber exatamente do que está cansado. Se cansa do "alguma coisa está errada" que paira sobre o ar desde uma época que você não se lembra.
Se cansa das avenidas, das ruas, das alamedas, das praças, do sol, dos postes, das placas de sinalização, das buzinas.
Você se cansa de amores incompletos, de amores platônicos, de falta de amor, de excesso disso e daquilo. Se cansa do "apesar de". Se cansa do rabo entre as pernas, da sensação de estar sendo prejudicado, se cansa do "a vida é assim mesmo". Você se cansa de esperar, de rezar, de aguardar, de ter esperanças, cansa do frio na barriga, cansa da falta de sono.
Você se cansa da hipocrisia, da falsidade, da ameaça constante, se cansa da estupidez, da apatia, da angústia, da insatisfação, da injustiça, do frenezi, da busca impossível e infinita de algo que não sabe o que é. Se cansa da sensação de não poder parar.

E você não para, até que esteja morto.

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

A Filha do Dono da Cidade

E era assim a vida de Maria Cecília, todos os finais de tarde dos domingos, assistia da janela de seu quarto seu velho pai na sacada, usando aquele chapéu gângster e fumando aquele charuto como se fosse uma religião. Era todo metódico.

Às dez para seis pegava o cortador que ficava na pequena gaveta da mesinha onde ficava a agenda com nomes que já nem habitavam mais essa terra, fechava, ia até a estante, abria a porta de vidro, e pegava a caixa de charuto, ficava contemplando-a por um bom tempo, com um sorriso sutil, um sorriso raro em quem tem um coração como aquele. Abria a caixa demonstrando uma certa empolgação, e com muito zelo, cortava a ponta do charuto. Sua expressão era a mesma de quem fez um árduo trabalho e agora desfrutava dos resultados satisfatórios.

Então, senhor José Augusto acendia o charuto segurando-o em uma mão e em outra segurava o isqueiro de prata, que ganhou de seu amigo falecido, anos atrás na França. Fechava a tampa do isqueiro, e sentava-se na cadeira da varanda. Ali desfrutava daquele charuto, olhava pra ele, e tragava, e olhava no horizonte, com ar de quem estava numa propaganda do Marlboro, de quem estava desfrutando da gorda aposentadoria de anos trabalhados. Mas a verdade é que todo domingo à tarde, seu Augusto pensava nas noites dos cabarets franceses, em que passara com seu amigo na sua juventude boêmia.

Maria Cecília observava tudo aquilo, filha de mãe portuguesa, já falecida, havia crescido com aquele pai, indiferente, rude, nojento, libidinoso, saudosista do passado e metido em seu próprio mundo. Nunca fora fiel a dona Marieta.

Cecília ali, todos os domingos, mocinha recatada, filha do dono da fábrica de charutos, cortejada por muitos e proibida pra todos. Abriu seu leque, respirou fundo, e foi se olhar no espelho, como todos os domingos às vinte para as sete da tarde.